A Meta levou a tribunal anunciantes brasileiros acusados de usar inteligência artificial para clonar vozes de celebridades em campanhas fraudulentas. A dona do Facebook e Instagram abriu processos nos Estados Unidos contra operadores no Brasil, China e Vietname, expondo redes que vendiam desde falsos produtos de saúde a subscrições forçadas.
A ofensiva jurídica, anunciada esta semana, marca uma escalada da empresa contra o uso de “deepfakes” e táticas de evasão publicitária (cloaking) que inundam as redes sociais com burlas.
O que aconteceu
A Meta instaurou processos judiciais contra entidades específicas no Brasil, como a Brites Corp e B&B Suplementos e Cosméticos, além de vários indivíduos associados, acusando-os de usarem imagens e vozes falsificadas de figuras públicas e médicos conhecidos para enganar consumidores com produtos de saúde não aprovados. Foram também enviadas cartas de notificação (cease and desist) a oito agências de marketing que prometiam ensinar a contornar as regras do Facebook.
Além do Brasil, a plataforma processou a empresa chinesa Shenzhen Yunzheng Technology por usar anúncios com celebridades para atrair vítimas para “grupos de investimento” fraudulentos nos EUA e Japão. No Vietname, o alvo foi Lý Văn Lâm, acusado de “fraude de subscrição”: o anunciante promovia descontos absurdos em marcas de luxo (como a Longchamp) para roubar dados de cartões de crédito e iniciar cobranças não autorizadas, escondendo o golpe dos revisores através de código malicioso.
Porque importa
O uso de “deepfakes” em anúncios passou de um problema técnico a um risco real e financeiro para os utilizadores comuns. Quando um brasileiro confia num vídeo aparentemente autêntico de um médico famoso recomendando um suplemento nas redes sociais, a burla ganha contornos de risco para a saúde pública, além do dano económico.
Para os pequenos anunciantes legítimos, o aumento destas redes criminosas prejudica o mercado, uma vez que a Meta é forçada a endurecer e tornar os algoritmos de revisão muito mais rigorosos, o que frequentemente resulta em falsos bloqueios de campanhas reais. O processo expõe também a industrialização da fraude, onde empresas vendem ativamente “cursos” sobre como enganar os robôs do Facebook.
O que pode acontecer a seguir
Ao arrastar estes nomes para os tribunais federais nos EUA, a Meta tenta criar um precedente intimidatório para outras redes internacionais. A empresa confirmou que já suspendeu métodos de pagamento e desativou as contas envolvidas, mas vai também reforçar os seus próprios modelos de IA para detetar técnicas evasivas (cloaking) com maior velocidade.
Se o tribunal der razão à Meta e aplicar multas milionárias a estes operadores, é provável que a plataforma intensifique a caça legal a outros anunciantes sul-americanos e asiáticos. Entretanto, os utilizadores continuarão a enfrentar um jogo de “gato e rato”, onde cada novo bloqueio técnico da Meta obriga os burlões a evoluírem ainda mais as suas cópias de voz e imagem geradas por inteligência artificial.
